(via subornos)
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Milena andava sempre fazendo um arco
Com os braços
Abrindo e fechando
Abrindo e fechando
Os braços
Ia por aí, assim,
Sempre com seu arco
Inspirava quando abria
Expirava quando fechava
Os braços
Quando ela começou a fazer isso
Toda a família achou graça
“Milena é cheia de manias, como sempre!”
E Milena era mesmo
Feita de ideias
Que começavam e sumiam
Milena tinha ímpeto de começo em tudo
Mas não sabia porque
Tudo apenas desaparecia
Sem finais
Sem notícias
Sem registros
Quando pequena se frustrava
Com o desaparecer
Da ideia de si
Visto que tantos eram tão firmes
Em suas repetições
E melhorias
Como podia
Então
Viver Milena
Sem marca
Vida arítmica
Um dia Milena resolveu
Que também teria jeito próprio
Que não se acabaria nunca mais
Então, começou a fechar e abrir
Os braços
Inspirava quando abria
Expirava quando fechava
Colocou na cabeça que faria
Aquele movimento
Até o fim dos dias
E se orgulhou do feito
De ser a “Estranha Milena”
Ao olhar de admiração e,
Talvez, um pouco de deboche,
Que todos lhe ofertavam
Que viveu e cresceu
Chamando a atenção por tamanho feito
Ninguém podia negar
Afinal, em todo seu tempo de vida
Nunca vira
Alguém igual a ela, por aí, andar
Achou que isto a fazia tão especial
Que não podia nem pensar
Na ideia de, um dia,
Deixar o arco findar
Acontece que,
Com o tempo
Milena foi notando
Que aquele movimento
Podia não bastar
Seus braços
Na velhice
Desejavam repousar
Ela insistia
Abrindo e fechando
Com medo terrível
De ver tudo parar
O tempo que viveu
Junto ao arco
Era para ela como um lar
“Mas talvez eu deva descansar”,
Pensou cedendo
E quando os braços relaxaram
A respiração de D. Milena
Também resolveu parar
Que Milena vai ser lembrada
Não se duvida
Naquela pequena vila
Ela foi uma excêntrica rainha
O que eu não sei
E por isso faço versos
É se D. Milena respirava
Porque fazia arcos
Ou fazia arcos porque respirava
(Nena Flor)
No ano que eu pulei a porca na virada, aconteceu muita coisa que me fez esquecer isso. Mas a real é que nesse mesmo ano, eu me ganhei de presente.
Vou dizer coisas agora que me são difíceis dizer. Que vieram em grande calor de uma pouca sobriedade, mas o ponto é: que vieram. E me atordoaram. Por ser grande a emoção dentro de mim. Por ser verdade. E dolorida. Por tudo isto, ser algo que eu preciso ouvir. E compartilhar.
Não posso participar do Coletivo Gaivota Manca. Não posso passar por cima de dores. De padrões que machucam. De atitudes que reproduzem enclausuramentos tantos que eu vivi a vida inteira. E que têm me cansado. Mais que isso, têm me deixado de mal com a Arte. Me sinto como uma criança birrenta que diz “não quero mais brincar”. Mas antes de tudo, respeito meu lugar porque sei que esta criança, esta pessoa, esta artista há muito não tem se divertido mais. Não tem se encontrado mais. Não tem esbarrado nos seres e feito algo a partir da união de suas almas e corações.
Eu já quis mudar o mundo. Eu já quis salvar pessoas. Hoje eu só queria mesmo me sentir minimamente segura para que eu possa ajudar, para que eu possa trocar, para que eu possa me apaixonar, para que eu possa brincar um pouco,
Por tudo isto, não acho justo comigo, com este corpo, com as minhas marcas seguir adentrando lugares, ideias, uniões que representem tanta coisa torta: silenciamento, machismo, síndrome de Princesa Isabel, histeria e por fim a ideia de “tudo pela arte”.
Eu não sei viver de tudo pela arte. E exatamente porque já fiz esse movimento. Eu tenho desejado pensar mais em “tudo pela vida”. E eu preciso de saúde pra isso. Saúde mesmo. Física. Mental. Espiritual. Eu preciso me sentir ouvida. Eu preciso me sentir confortável. Eu preciso curtir os processos. Eu preciso me divertir. Eu preciso ter segurança.
Mas sabe o que acho que não preciso? Confiar. Porque pra mim dizer todas estas coisas é a maior prova que eu confio. Pra mim dizer “Não posso” sem pedir desculpas, por mais difícil que seja, é um ato de libertação, coragem e principalmente confiança. Em mim. E nas relações nas quais o amor realmente é a prioridade. Confiar de que o que tiver que sobreviver, sobreviverá. O que tiver que continuar, seguirá.
Mas sem que eu tenha que me sacrificar demais. Sem que eu tenha que sempre sentir dor. Sem que eu tenha que achar graça quando na verdade eu não concordo. Sem que eu tenha que dizer a mim mesma “Tá tudo bem porque são seus amigos, Jéssica”. Se são meus amigos, eu quero poder dizer “Não tá tudo bem”. E mais que isso, quero o direito de não ser obrigada a me rever. Rever o que eu sinto e o que me queima. Quero ser respeitada pela minha decisão.
Porque me sinto exausta de seguir ensinando. Neste momento estou sem energia pra ensinar. Sem energia de suportar pela arte, pelo teatro. Não acho e não quero acreditar que só há esse jeito. Mas preciso do meu tempo e do meu lugar seguro pra descobrir outros meios.
No momento, o Coletivo Gaivota Manca não é este lugar. E eu não falo tudo isto para que ele se transforme no MEU lugar seguro, mas que ele comece sem mim já se repensando. Pra ser um lugar seguro e criativo para aqueles que toparem.
Meu corpo tem pedido esse retiro há tempos, e eu o darei. Porque só eu sei o que ele passou e aguentou. É a quem eu me sinto mais grata: meu corpo. Esse pedaço de carne que segue sobrevivendo. Darei a ele o direito de repousar. De descansar.
Por fim, não sei se participarei do processo do Switzerland também. Eu fui machucada este tempo. Eu topei. Mas estou cansada. Acho justo quebrar a meta, se sinto que ela continuará me atormentando.
Talvez eu não saiba mais ser profissional. Mas eu quero primeiro me sentir livre, ainda que amadora.
(via subornos)
Ou se eu retomo a tuas ideias de afeto e de estória, quase te acolho de novo.
Eu não duvido. Que doeu. Mesmo. Não consigo nem imaginar como poderia não ter doído. É por isso. Que fugiu. Que foi covarde. Que negou tudo, fingindo estar assumindo coisas. Que foi desonesto comigo, consigo, com os outros. Que se aborreceu por sentir. Que se frustrou por continuar sentindo. Que lembrou que antes era menos complicado. Que não esqueceu de que fácil nunca foi. Eu não duvido. Talvez nisso também resida um pouco da raiva. Eu ainda acredito. Em alguma coisa. Não no que você disse. Não nas suas razões. Não nas suas provas de afeto. Muito menos no que você escreveu. Acredito no que reside antes de tudo isso. No que você não se esforçou (não ligo se discorda) para tentar entender, ainda que minimamente.
Porque eu o fiz. Várias vezes. Hoje. Anos depois. Ainda me vejo fazendo. Trilhando caminhos para compreender. Para aceitar. Para perdoar. Para esquecer. Como pode não, simplesmente, termos sido? Eu sei que você foi se perguntando. O problema é que eu que fiquei remoendo. Eu ainda estou? Remoendo. O problema do sincericídio.
Odiaria ver você dizendo que entende. Isso eu duvido. Duvido porque acho que perdemos qualquer resquício de chance de compreender qualquer coisa que fosse uma realidade para o outro. Na minha cabeça é Torre de Babel. E eu me aborreceria tanto com a tentativa de conversa, que iria agradecer mesmo se tudo acabasse e caísse em cima de nossas cabeças. Silêncio. De tudo. De vida. De história. De explicações. De tentativa. De recriações. De possibilidades. De outro futuro. Silêncio disso tudo.
Ufa. Eu diria, se pudesse dizer ainda. Qualquer que fosse a coisa.
Mas essa não é a parte mais cruel deste sincericídio, a parte mais cruel é: sem saber, sem lembrar, sem sinal nenhum que fosse do que já se foi, eu acordaria novamente. Em outro lugar. Outro corpo. Outra história. Em um aguardo mais que inconsciente de um novo encontro. E eu sei. Nisso eu acredito. O reencontro aconteceria.
Só que entenda: se ele acontece a partir deste sincericídio, estamos fadados a ser novamente problemas na vida um do outro. Quem foi que nos ensinou sobre destino? Que ideia ridícula. Traiçoeira. Mais que isso: aprisionadora. Por isso, insisto: esqueçamos ainda em vida. Terminemos por deixar o tempo apaziguar ao ponto de ridicularizar tudo aquilo. Até as coisas mais absurdas que tivemos a completa falta de noção de dizermos um para o outro.
Então, se mantenha afastado, já que não faz a menor questão em ser esquecido. Estou cansada de me responsabilizar por dois. Não é justo me apagar de mim para não esbarrar em ti. Pois assim, deixa meu espaço em paz. Deixa. Já que deixar é algo que eu lembro que sabes fazer.
(eu preciso despejar a mágoa que protegi de você)
Se eu for ser sincera. Mesmo. Talvez eu mate. Ou morra. De novo. Mais uma vez. Revolta. Estúpida. Asfixiada. Tão puta. Tão dentro. Tão latente. Se eu fosse mesmo dizer o que eu sinto, ninguém entenderia nada porque seria um berro. Um horror. Um freak show. E você, sabe como você reagiria? Escandalizado. E encantando ao mesmo tempo. Como sempre. Você. Esse ser que começa lá embaixo. Que eu preciso sugar para ver se alcanço um lado seu que não seja escroto. Que eu preciso morrer ou matar para ser ouvida. Para ser vista. Para ser considerada. E ainda assim, sou tão pouco. Ou melhor, sou a mesma. Porque sou lida como louca. Como dramática. Como histérica. Como alguém que precisa, ai, meu deus, precisa tanto, tanto ser salva. Resgatada. Por você? Eu pergunto. E saio correndo. Porque DEUSA, por todo amor que tenha por este mundo ainda, não me deixe. Não permita que eu, logo eu, seja salva por ele. Não deixe que nós, principalmente nós, sejamos salvas por estes que não sabem nem o que sentem. Que jorram afetos idiotas e amores loucos, e histórias. Nossa, quantas histórias. Verdadeiros artistas. Ai, MINHA DEUSA. Me deixa longe dos artistas. Por favor. Por tudo que há de mais sagrado. Me mantém longe deles. Que eu tenho medo. De acreditar. Nas histórias. Entende? Na história que eles contam, com tanto ar de propriedade. Com tanta falsa humildade. Ai, meu deus, mas não é que faz sentido. Talvez seja isso. Ai, meu deus. Talvez eu precise estar próxima para ensinar mesmo… E acalentar seus corações e… Não, DEUSA! Não deixa. Me puxa de volta. Me atraca em teu âmago de sabedoria pura e não me deixa esquecer que não vale a pena. O quê?, ele pergunta. Eu respondo “NADA. NADA VALE A PENA. CALA A BOCA”. Eu digo aos artistas. Estou puta. Raiva. Sabe? Raiva. É o que sinto. Por que é tão confortável a loucura deles e a minha precisa ser engolida? POR QUE, minha DEUSA. ME DIZ. Ai, meu deus, lá vem ele de novo. Eles. Com uma nova ideia. Acho que é uma poesia. Puta que me pariu e me deixou. Puta. Fica comigo. Não me dá na mão deles. Que eu prefiro. Ou melhor, eu quero essa escola de ser puta. De sentir, mas não mais acreditar. De gozar, mas não mais me deixar ir. Puta que me pariu, me deixa contigo. Ligada ao teu ventre. Que do PEQUENO falo eu faça uso, mas que não seja meu espaço. Eles seguem. Ah, poema. Droga de poema. Olha as caras. Ai, que eu preferia aquele pagode. É afeto muito mais honesto. ELE DISSE! Eu não sei se foi para mim. Mas ele disse. “Você é o amor da minha vida”. Eu não sei se rio. Ou se mato. Antes que alguém acredite nele. Antes que eu acredite nele. Espera. Agora ele está sussurrando? Acho graça. Acho mesmo. Percebo, confirmo: ele não me vê. Estou segura. Mas ele ainda sussurra, enxergo o alvo. Eu grito. Digo: “DEUSA DO OUTRO CANTO, DEIXA. OUVE A MIM. NÃO A ELE”. Chore por mim, não, não liga para ele. DEUSA, até que a poesia deles serve para alguma coisa. A DEUSA DE LÁ me olha. Confusa. Não entende o que eu digo, mas percebe meu desespero. Quer ficar, mas se preocupa. PORQUE ISSO, MEUS AMORES, TODOS NÓS APRENDEMOS. Tá no meu inconsciente mais inatingível a ideia de que eu preciso ser mãe. Mas tudo bem. Eu digo. Para mim. Não para eles. Nunca. Nada. Para eles. Tudo bem que eu seja assim, tão materna, que eu me importe e me responsabilize pelo que sinto, ao contrário de… Nem preciso repetir, certo? A Deusa entende, ele que eu não tenho certeza. Eles só entendem o que convém. E se entendem a dor é só para virar obra de arte. Acho graça. Até ver a porra da obra. Obra boa de um caralho. Raiva. Eu tô lá, na obra dele. Musa. Desgraçado. Me comove. Ele consegue fazer com que eu me odeie até nessas horas. FICA DIFÍCIL EXISTIR. Ah, não. Tem dedicatória. Tem agradecimento. Tem poema pra finalizar. Opa, eu ouvi meu nome? Não é meu nome. Mas é meu nome escrito ao contrário. Depois eu que sou louca. Histérica. Dramática. Isso, isso porque eu não sou sincera. Mesmo depois de todo esse expurgo, eu estou longe de ser sincera. Eu os poupei. Mais uma vez. Eu os poupei. Porque - ainda me esforçando para tentar sincera - a última coisa que eu gostaria é de estar na pele deles. Prefiro à histeria a ideia de só sentir para bater punheta. Seja com porra. Seja com aplausos.
O que você acha que vê?
Para além de você
No outro está a tua cópia
Tuas verdades
Tua história
A gente acha que enxerga
Mas nem faz ideia
Do fardo que a visão de mundo
Do outro carrega
O que você acha que o outro tem?
Que parâmetro você usa?
Para definir o que é pouco, o que é muito
Qual é a média
Da felicidade
Que você define e busca?
Talvez o outro não precise
Das mesmas coisas que você
Seu mundo costuma ser estreito
O outro está para além do que você vê
O que você acredita que é escuta?
Se tudo parte dos seus saberes
Não enche o peito de orgulho
É tudo ego,
Sem troca nenhuma